Suresu acordou, e tremeu com a dor provocada pela ferida. Sentia algo a fazer força contra o seu tronco, com força suficiente apenas para não o magoar. Com um cerrar de olhos e um grunhido de dor, tentou sentar-se. Estava dentro de uma das tendas do acampamento. Siria aproximou-se dele, e ajudou-o a deitar-se de novo, tendo cuidado para não aleijar.
'Calma, Suresu, calma. Ainda estás muito magoado para te poderes levantar' disse ela, a voz num murmúrio fraco e cansado.
'O que se passou, irmã?' perguntou Suresu.
'Bem, quando saltaste, houve um soldado que te viu, e te trespassou com um dos seus sabres. Desmaiaste e ficaste lá até acabar a batalha...' respondeu Siria.
'E tu, estás bem? E o Ytur?'
'Sim, eu estou perfeitamente bem. Eles nunca conseguiram ver-me. Mas o Ytur...' disse Siria, com uma cara pesarosa, a desviar os seus olhos dos do irmão.
'O que se passou?' perguntou Suresu, alarmado.
'Bem... Ele matava qualquer um que se aproximasse... Por isso, um dos soldados atirou-lhe com uma lança. Ele desviou-se, a lança não o atingiu, mas permitiu que um dos soldados cavalgasse contra ele. O cavalo derrubou-o e atingiu-o nas costelas... Ainda não acordou, nem se mexeu... Quase o achei morto por várias vezes...' disse Siria, com as lágrimas a ameaçar aparecer.
'Oh, Siria, não te preocupes... Ele vai ficar bem. Sabes como ele é, nada o mata' disse Suresu, sentando-se e abraçando Siria.
'Eu sei, mas mesmo assim... Sinto-me tão mal, por vos ver aos dois assim...' disse Siria, as lágrimas correndo livremente.
Suresu e Siria ficaram assim, durante algum tempo, abraçados, a tentarem confortar-se mutuamente.
Nessa altura, Ytur acordou, tossindo e a fazer muito barulho. Siria levantou-se de um pulo, apressando-se a ir ao pé do velho, enquanto Suresu se levantava mais devagar.
Quando Suresu se aproximou do velho, este acalmou-se. Abriu os olhos, enormes nas suas órbitas, e fitou o jovem.
'Suresu... Siria... Meus filhos... Há tanto tempo que vos quero dizer isto... Vocês são os meus filhos... A tua espada, Suresu... Quando ta dei, não te quis dizer onde a obtive... Mas eu sempre a tive comigo...' Ytur parou de falar, e tossiu. De seguida, retirou um caderno gasto da sua túnica, e entregou-o a Suresu.
'Este é o meu diário. Aí escrevi o mais importante de tudo. Aí está explicado o porquê de não vos ter dito nada, e o que aconteceu... Vou morrer agora, vejo o Cavaleiro da Gadanha a vir-me buscar...'
'Não digas isso, pai! Ainda consegues! Tu vais sobreviver!' disse Suresu, à beira do desespero.
Ytur nada disse, e apenas fechou os olhos. Suresu e Siria abraçaram-se e choraram a morte do seu pai.