Ontem, depois do jantar fui passear. Dar uma volta pelo bairro, digerir o jantar. Vi, ao fundo da rua, duas pessoas e dois cães. Caminhavam juntos, cada um com um cão. Os cães puxavam-nos em direcções opostas, mas trilhavam o mesmo caminho. Tinham cabeças tocadas pela neve, e caminharam juntos a vida toda. Aproximei-me, e perguntei se poderia fazer festas aos cães. Deixaram-me. Primeiro o cão, enquanto o homem observava cuidadosamente. O cão assustou-se e afastou-se. A cadela arrastou a dona, ansiosa por umas carícias. Após lhe ter feito a vontade, fui-me embora.
Hoje voltei a dar uma volta. O mesmo caminho, a mesma hora. Esperei encontrar o mesmo casal. Encontrei os mesmo cães. Mas, desta vez, apenas o homem os conduzia. De quando em vez, a vadela tropeçava. Voltou a tropeçar e caiu. Não se voltou a levantar. O homem sentou-se no passeio, e colocou a cabeça entre as mãos, enquanto o seu corpo tremia violentamente. O cão sentou-se ao lado do corpo da cadela e elevou a cabeça à lua, uivando pesarosamente. Virei costas e fui-me embora. Fechei a janela do quarto, mas ainda oiço o uivar do cão, misturado com os soluços do homem.